O conflito armado entre os Estados Unidos, Israel e o Irã, deflagrado em fevereiro de 2026, produziu em março do mesmo ano uma série de choques econômicos que atravessam o Atlântico e atingem diretamente o Brasil. Com o Estreito de Ormuz — passagem por onde transita 20% do petróleo mundial — sob ameaça de bloqueio iraniano, o barril do petróleo Brent ultrapassou a barreira dos US$ 100, derrubando bolsas globais e pressionando a inflação em todo o mundo.
O Estreito de Ormuz e a Crise Energética Global
A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) classificou o conflito como um "choque duplo" na economia global: alta do petróleo elevando a inflação e reduzindo o crescimento simultaneamente. A agência revisou para baixo as projeções de crescimento global e para cima as de inflação nos países desenvolvidos.
"A guerra do Irã apaga a melhora do crescimento global e alimenta a inflação. O choque é comparável ao embargo petrolífero de 1973." — OCDE, março de 2026
Impacto no Agronegócio Brasileiro: A Rota do Cabo
O Oriente Médio é um mercado vital para o agronegócio nacional, especialmente para o setor de proteína animal e carnes processadas sob certificação Halal. Com a interrupção das rotas navais tradicionais, companhias de navegação suspenderam reservas de carga para a região do Golfo.
A Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) alertou para a gravidade do quadro: 95% da carne bovina e de aves enviada à região é congelada. O desvio dos navios para a extensa rota do Cabo da Boa Esperança (África do Sul) eleva exponencialmente os custos de manutenção da cadeia de frio e faz disparar as taxas de seguro marítimo, que agora embutem pesados prêmios de risco de guerra.
| Indicador | Antes da Guerra | Após a Guerra | Variação |
|---|---|---|---|
| Petróleo Brent (US$/barril) | US$ 82 | US$ 100+ | +22% |
| Diesel (R$/litro) | R$ 6,20 | R$ 7,45 | +20% |
| Taxa de frete (Ormuz) | US$ 800/contêiner | US$ 4.800/contêiner | +500% |
| Fertilizantes nitrogenados | US$ 320/tonelada | US$ 480/tonelada | +50% |
| IPCA-15 (prévia março) | 0,28% | 0,44% | +57% |
Banco Central: Selic em 14,75% e Inflação Revisada
O Comitê de Política Monetária (Copom) optou por uma redução conservadora de 0,25 ponto percentual na Taxa Selic, reduzindo-a de 15% para 14,75% ao ano. A decisão reflete o imperativo de mitigar o sufocamento do crédito à pessoa jurídica e evitar um colapso da atividade econômica, enquanto as projeções de PIB foram revisadas para um crescimento esquálido de apenas 1,5% a 1,6% para o ano.
O Banco Central elevou a projeção de inflação para o teto da meta (3%) no terceiro trimestre de 2028, sinalizando que o ambiente inflacionário persistirá por pelo menos dois anos.
A Resposta do Governo: MP com R$ 15 Bilhões
Buscando atuar como amortecedor do choque externo, o presidente Lula assinou Medida Provisória instituindo o resgate do Programa Brasil Soberano, com liberação de R$ 15 bilhões em linhas de crédito emergenciais operacionalizadas pelo BNDES. O crédito subsidiado destina-se à injeção de capital de giro, inovação tecnológica e reestruturação produtiva das empresas exportadoras com cadeias de suprimento rompidas pelo conflito.
Diplomacia: Brasil Condena Ataques e Defende Multilateralismo
O Itamaraty emitiu notas oficiais condenando os ataques preventivos de Israel e dos EUA contra o Irã, repudiando com igual veemência as retaliações iranianas, e apelando ao respeito à Carta da ONU. O presidente Lula adotou retórica combativa, criticando a falência estrutural do Conselho de Segurança da ONU e defendendo a autonomia estratégica do Sul Global.
A diplomacia brasileira esforça-se para equilibrar sua posição dentro do BRICS ampliado sem comprometer irremediavelmente as relações comerciais e financeiras com os Estados Unidos sob o comando de Donald Trump — um delicado exercício de equilíbrio que define a política externa brasileira neste início de 2026.




